A panaceia das redes sociais

Nas lutas sociais, confundir os meios com os fins é um erro fatal. Não menos danoso, quanto às suas consequências, é o equívoco de transformar o que é simples meio em causa determinante de um processo. Esse segundo deslize vem sendo cometido com relação ao papel das redes sociais nas rebeliões que eclodiram em países árabes e nas manifestações como ocorridas na Espanha e Grécia. Analistas apressados e entusiastas das “novas tecnologias” atribuíram àquelas papel central e determinante na irrupção desses processos. Cabe colocar as redes sociais em seu devido lugar.

As redes sociais, assim como a internet em geral, não podem ser vistas como mais do que aquilo que realmente são – meios de comunicação. Enquanto tais, não contribuem em nada para explicar os processos sociais que há longo tempo vem se desenrolando e que encontraram sua manifestação mais ou menos explosiva naquelas revoltas e manifestações. Atribuir às redes um papel mais do que suplementar é mistificar a realidade, ocultar as determinações fundamentais daqueles eventos, que se encontram na luta de classes. Em análises apressadas ou enviesadas, as redes e as “novas tecnologias” são tratadas como se fossem portadoras de democracia, espraiando-se e despertando os povos.

É evidente que não se pode negar que as redes sociais, e a comunicação por meios eletrônicos em geral, cumpriram papel relevante naqueles acontecimentos. Ao permitir a troca de ideias e rápida comunicação, em certos momentos revelaram-se cruciais para auxiliar na organização dos movimentos. Podem mesmo ter afetado sua forma, mas não seu conteúdo. E o conteúdo, as causas mais fundamentais, encontram-se em processos históricos, cujas raízes são anteriores às redes e à internet. No caso das revoltas árabes, são produto de tensões postas por regimes opressores, em suas relações de subordinação ao capital internacional e às potências imperialistas, com os agravantes da crise mundial que estourou recentemente. Quanto aos movimentos na Europa, derivam da rápida erosão das condições de vida e dos restos do Estado de bem-estar, como consequência daquela mesma crise e da resposta dada a ela pelo capital financeiro e pelos seus Estados, contra os trabalhadores.

Obviamente, são processos e lutas muito mais complexos do que se pode abordar em poucas linhas, e sem conhecimento concreto das circunstâncias específicas. Mas é o que basta para sugerir as descomunais proporções do engano de imputar às redes sociais mais do que papel secundário, como catalisador inicial de insatisfações e como facilitador da comunicação e organização. O entusiasmo não se justifica. As redes não trarão um modelo, uma solução para os dilemas das decisivas lutas políticas de nosso tempo. Assim como as formas de luta devem responder às condições cambiantes, também os meios devem se adequar às mesmas. Enquanto meios, nada podem, em si, explicar sobre as causas, e nem mesmo quanto aos fins. O conteúdo antes de tudo.

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Leituras Marxistas do Século XX

 

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Curso de Realidade Brasileira – Aula 1

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Curso de Realidade Brasileira

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O voto nulo não é inconsequente

Por Leandro Ramos Pereira*

Queria aqui, de maneira amigável e fraternal colocar minha posição sobre o segundo turno, já que acredito que a escolha do voto em Dilma ou no voto nulo deve ser pensado por meio de observações concretas, ou seja, não podemos nos influenciar por esta onda sensacionalista, que tenta polarizar a disputa eleitoral entre o “estalinismo” do PT e o “fascismo” do PSDB. Também acredito que é preciso entender os limites do neoliberalismo no Brasil.

Quanto a este segundo problema, sabemos que o neoliberalismo é tanto uma política econômica, quanto uma ideologia. Enquanto política econômica prática, sua implantação se distingue de maneira diversa em cada país em função das especificidades históricas, das potencialidades econômicas e do perfil de luta política travada. No Brasil, a política neoliberal foi intensa, e cumpriu o seu papel: implantou um novo padrão de desenvolvimento econômico, que não significa o anti-Estado, mas uma certa forma de organizar o Estado em prol de determinados interesses. A política social assistencialista está inscrita nesta política neoliberal maior. O governo tucano foi o primeiro a implementar tal política. O governo Lula, que votou contra tais políticas (já que era a favor de políticas universais), unificou as políticas as mesmas e a aprofundou. Mas, apesar disto esta política social é 10 vezes menor do que o que se gasta com o pagamento de juros. Vale destacar também, que no governo FHC, também houve uma pequena melhoria no índice de GINI, e aumento do salário mínimo.

Quanto às privatizações, o governo tucano privatizou tudo menos quatro empresas: Petrobrás – apesar de abrir capital na bolsa e valores -, Caixa Econômica Federal, BNDES, e Banco do Brasil. Eles tiveram todas as condições para privatizá-las, mas isto não foi feito, porque os mesmos sabiam que estas instituições são importantes, ou melhor, fundamentais, pois são responsáveis pelos únicos instrumentos existentes no Brasil para o crédito rural, habitacional e de longo prazo. Ou seja, não havia mais espaços para as privatizações de grande porte. Não obstante, o governo Lula privatizou dois bancos, aumentou as terceirizações e criou as PPPs.

Já em 2003, o governo Lula faz uma reforma previdenciária que aumentou o tempo de serviço dos contribuintes e taxou os aposentados.

Quanto á política econômica, o governo Lula estimulou o desenvolvimento do agronegócio e das bolhas especulativas do capital financeiro, que vieram aproveitar os elevados juros dos títulos públicos, financiados por aproximadamente 30% da carga tributária, pagas, sobretudo, pelos pobres. Se num primeiro momento o agronegócio puxou o crescimento econômico, num segundo momento, este foi puxado pelo aumento do crédito interno, financiado pelo explosivo e crescente déficit externo, déficit este que fez com que os investimentos estrangeiros em carteira fossem uma vez em meio superior às reservas, acumulando um passivo externo da ordem de mais de um trilhão de reais.

Obviamente que, com o crescimento econômico, as pessoas se sentem melhores, a massa salarial aumenta, o crédito está subindo a cada dia, e existe uma sensação de bem-estar, apesar dos serviços públicos terem efetivamente piorados. Aliás, o crescimento econômico do governo militar nos anos 70 também o fez muito popular entre os mais pobres. No entanto, é também necessário entendermos os limites deste crescimento, para sabermos se ele é sustentável estruturalmente. E quando percebemos que este crescimento do mercado interno via crédito está sendo financiado pelos fluxos de capitais externos e voláteis, e quando analisando que esta estrutura de demanda está em descompasso com a estrutura de oferta, ou seja, com o aumento da desindustrialização e da “commoditização” da economia brasileira, dada uma taxa de cambio extremamente valorizada, notamos que há limites estruturais para este crescimento e que a reversão deste ciclo pode ser muito prejudicial e acabar com todas estas supostas conquistas. Como dito pelo próprio Furtado, o crescimento é o mito do desenvolvimento econômico.

Quanto aos movimentos sociais, durante o governo Lula, o MST fez menos ocupações, sendo que o mesmo governo fez menos reforma agrário que FHC. Para mim isto é uma enorme contradição, que mostra uma possível cooptação deste movimento. Não há toa este mesmo movimento vem sofrendo rachas internos, que podem comprometer a sua unidade. O debate sobre cooptação não é superficial e nem normal. Acredito que este seja um dos grandes problemas da esquerda no século XX. A independência dos movimentos sociais, sindicatos e etc, é pré-condição para qualquer mudança estrutural em qualquer sociedade, sem o qual o movimento perde força e se adéqua à ordem.

Quanto à polarização que está ocorrendo nestas eleições, ela é muito mais moral e eleitoreira, do que política, no que tange á projetos políticos. Se de um lado a “direita” (setores mais conservadores e arcaicos) vem fazendo uma campanha suja nestas eleições, do outro, o “petismo” vem fazendo o mesmo, mas com sinal contrário, como se realmente houvesse uma disputa de projetos políticos realmente antagônicos. Mas fico muito mais intrigado em analisar o fato de que, na busca da governabilidade a qualquer custo, bandeiras históricas do PT, como o aborto, criminalização da homofobia, reforma agrária, e etc, foram escamoteadas ou simplesmente alijadas do projeto político. O vale-tudo pela governabilidade e a visão “curto-prazista” da dinamica capitalista no Brasil nos últimos anos encobertam os problemas estruturais da economia brasileira e dos setores marginalizados da nossa sociedade, e qualquer projeto de reforma estrutural deste mesmo capitalismo.

Ademais, não se trata de uma polarização direita x esquerda. Se de um lado Serra tem apoio da mídia, setores religiosos, etc, Dilma teve a maior arrecadação de campanha, oriunda de bancos, empreiteiras e do agronegócio. Ademais, ela é apoiada por Collor, família Sarney, Renan Calheiros e Garotinho (todos da direita). Não acredito, portanto, que é uma disputa esquerda x direita. Pode ser que hipótese mais plausível é o apoio parciail de facções de direita divididas entre Dilma e Serra.

Neste sentido foi que eu falei que o debate era mais moral. O jogo sujo de Serra e seus “companheiros” apontava para um compromisso ético em votar em Dilma. No entanto, a postura do PT em abrir mão de bandeiras históricas e utilizar o mesmo método de “medo-pânico” contra o PSDB, nos faz repensar o significado do nosso voto.

E se o Serra ganhar as eleições? Vale ressaltar que Serra é a ala a esquerda do PSDB, e é visto com bons olhos por muitos do PT, como, por exemplo, a própria Maria da Conceição Tavares, que afirmou numa entrevista que se ele ganhar, não haverá mudanças no projeto instalado. Se o Serra ganhar as eleições, ele vai aproveitar esta estrutura iniciada no governo FHC e melhorada por Lula e seguir este mesmo padrão de desenvolvimento, porque trata-se de um mesmo padrão: políticas sociais assistencialistas, aumento do crédito, desindustrialização e “commoditização”, e apoío ao agronegócio; pois este é o espaço que nos foi concedido pela ordem econômica internacional. Por sua vez os impasses deste modelo são: capacidade de endividamento das famílias (que está se esgotando), aumento do salário mínimo (que também já está se esgotando), e crescimento do déficit externo (que pode durar mais em função da pré-sal, mas que pode ter como conseqüência uma maior desindustrialização do Brasil).

Portanto, tanto Dilma, quanto Serra representam o mesmo projeto. Não se impõe, neste sentido, a tese do quanto “pior melhor”.

Por estes argumentos descritos acima, o voto nulo não é um voto inconseqüente, mas pelo contraio, é um voto ciente de que os projetos em disputa são idênticos e que não responde ao principal problema da sociedade: extrema desigualdade social.

* Mestrado em Economia – IE/UNICAMP

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Ponderações e esclarecimentos sobre “Não há alternativa”

Tudo aquilo que se escreve no calor do momento e, principalmente, quando as idéias são movidas por um forte sentimento de indignação, acaba dando margem a mal-entendidos. Mas o saldo positivo é o debate que estimula. Em todo caso, creio que cabem algumas ponderações e esclarecimentos sobre o texto “Não há alternativa”:

1. Afirmar que não há polarização não implica, de modo algum, dizer que as duas candidaturas (e seus eventuais governos) sejam idênticas. Ao contrário, isso se demonstra nos próprios métodos aos quais a candidatura Serra vem recorrendo, principalmente neste segundo turno, métodos certamente condenáveis e marcados pelo tom reacionário. A face assumida pelo poder de Estado faz diferença. O questionamento que levanto é que ambos operariam nos marcos do mesmo modelo, de articulação de determinados interesses econômicos (responsáveis pelo atual “milagre”) e de correlação de forças “imobilistas”, e isso não se coloca em xeque por nenhuma das candidaturas. Tanto Dilma quanto Serra atuarão para a perpetuação do modelo, dentro do estreito raio de ação possível (condição para sustentar aqueles interesses e correlação de forças, acomodando classes dominantes), mas cada um a seu modo particular, mais ou menos autoritariamente, mais ou menos tolerante, com discurso mais ou menos demagógico, mas em qualquer caso ancorados aos férreos parâmetros do modelo. É como se estivesse em jogo diferentes modos de gerir um mesmo empreendimento, mas sem colocar em dúvida a solidez e eficiência das estruturas da empresa.

2. Os métodos e o discurso de Serra são absurdos e condenáveis, sem a menor dúvida, tanto quanto sua prática política enquanto governador de São Paulo. Qualquer um que conheça a situação dos funcionários do Estado e que se recorde da forma truculenta com que Serra “dialoga” com suas reivindicações mais elementares e com os movimentos sociais em geral, apenas para ficarmos no mais óbvio, tem consciência dos riscos que um eventual governo tucano representaria. O primeiro ponto que pretendi ressaltar (tendo em mente o marco mais geral que mencionei no parágrafo anterior) é que isso não configura uma ameaça fascista. Não há forças sociais (bem definidas e organizadas), nem um partido, nem uma situação histórica que justifiquem colocar no horizonte de possibilidades um governo totalitário ou mesmo algum risco de golpe de Estado. O modelo está operando muito bem da forma como foi reciclado e aprimorado pelo governo Lula, não é para tanto. Está assegurado um padrão de luta de classes que bloqueia o embate político “a partir de baixo”, desmobilizando forças organizadas e atenuando o sentimento de revolta dos “condenados do sistema”, dando as premissas sociais e políticas para a continuidade dos grandes negócios em curso. Por isso vejo a “radicalização” do discurso e prática da candidatura Serra, antes de tudo e basicamente, como oportunismo para roubar votos. Ora, é muito fácil apresentar razões para quem é de esquerda, progressista, para não votar em Serra. E aqui entro no segundo ponto, que critico, e que é a opção pela “negação” com que se apresenta a candidatura do PT: vote em Dilma para evitar o Serra, para evitar a “onda reacionária”. Mas por que votar em Dilma? O que essa candidatura representa? E, por fim, a forma como o PT assimila os termos em que o adversário coloca a disputa, o que expressa sua prática política: sob pressão, contestado, recua, fica na defensiva, acomoda-se, adapta-se. É o compromisso em não romper a ordem, que precisa ser reafirmado e provado a cada embate.

3. E aqui apresenta-se o ponto crucial da situação que caracterizei como “angustiante”. No momento histórico em que nos encontramos, levando-se em conta o contexto internacional mais geral de crise econômica e reação política; o contexto latino-americano de governos de esquerda e revolucionários sob ameaças de golpes; e a situação particular brasileira já delineada; em que tudo isso compõe um espaço mínimo para lutas pelo avanço efetivo da democracia e, para a esquerda revolucionária em particular, quase nulo; e frente aos desafios mais imediatos que se colocam (como o avanço de Serra); enfim, dado que o espaço para intervenção agora é pífio, vemo-nos obrigados a opções difíceis, que em outras circunstâncias poderíamos não tomar. Contudo, frente a um desafio imediato, exige-se uma resposta igualmente imediata, e realmente não podemos nos deixar paralisar pela adversidade do momento. A tarefa, dada a rapidez com que os acontecimentos agora estão se desdobrando, é derrotar Serra e a articulação PSDB/DEM. Isso passa muito longe de dar apoio entusiástico e acrítico à candidatura do PT. É menos que uma opção pelo menor dos males, é procurar identificar com quem preferimos travar combate daqui por diante, ou melhor, em quais circunstâncias será possível algum avanço na rearticulação das forças de esquerda e de maior combatividade dos movimentos sociais.

4. E, por isso mesmo, a ação pressupõe clareza dos objetivos estratégicos, da finalidade, que é a liquidação de todas as forças que mantém o Brasil agrilhoado ao passado, e que não podem ser superadas por meio de concessões e alianças espúrias. Não podemos subestimar as verdadeiras forças reacionárias, que são o conjunto das classes dominantes agora, mais do que nunca, acomodadas em um modelo que contempla todas, e que, por mais que se apresentem como “modernas”, “progressistas”, sempre revelam sua verdadeira face profundamente intolerante e autoritária quando se sentem ameaçadas (na base de seus negócios e privilégios) por qualquer proposta de mudança contundente e por quaisquer manifestações populares. Trocando em miúdos, longe de propor aliança tática com o PT, creio que cabe promover a derrota da articulação PSDB/DEM, mas tendo no horizonte imediato (pós-eleitoral) e de longo prazo a necessidade de enfrentamento também das forças articuladas em torno ao PT, que sob a habilidade política do governo Lula, criou um modelo aperfeiçoado que solidifica os interesses das classes dominantes, cristaliza e potencializa seus privilégios ao aprofundar a integração capitalista dependente, e assegura a ordem ao demolir conquistas históricas dos trabalhadores brasileiros e ao imobilizar os movimentos sociais, reiterando a intolerância dessa formação social ao uso legítimo do conflito.

5. Toda prática vincula-se profundamente a uma ideologia. A ideologia que se afirma, que se compromete com a totalidade e não com a parcialidade, é a ideologia verdadeiramente progressiva, que ousa pensar o futuro, fundamento da permanente crítica teórica e prática do status quo. A ideologia que se dissimula a si mesma, a ideologia da negação da ideologia, é o fundamento da eternização do presente, que, no caso particular do Brasil, corresponde à eternização do passado no presente. Que futuro nos aguarda? Não nos cabe apenas indagar. Cabe construí-lo desde já.

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“Não há alternativa”

Em tempos recentes, dificilmente passamos por uma situação tão angustiante quanto à carência de alternativas, e com um espetáculo tão deplorável quanto o que se apresenta neste segundo turno da disputa eleitoral. Não é apenas o nivelamento a baixíssimo nível da discussão, incluindo expedientes apelativos como o recurso à religião e uma série de troca de acusações, o que impressiona. O que espanta é a tática de intimidação empregada tanto pelo PT quanto pelo PSDB e suas respectivas coligações. São evocados fantasmas do passado e as perspectivas mais terríveis são apresentadas para quaisquer um dos candidatos que seja eleito. Defensores da candidatura Serra acusam Dilma de atentar contra os “valores cristãos”, contra a família e contra a liberdade de imprensa; do outro lado, apoiadores de Dilma apresentam Serra como prenúncio de uma ameaça de cunho fascista, apoiado pelos setores mais reacionários da sociedade; e assim por diante. Na aparência, estaria ocorrendo uma polarização entre forças progressistas e reacionárias. Nesse caso, parece-me que a questão relevante é saber se há, na base dessa suposta polarização entre PT e PSDB, verdadeiras forças sociais, com expressão e organização, em movimento.

O esforço para compreender objetivamente o que se passa, além da cacofonia do momento, é tremendo, mas imprescindível para entender as perspectivas que estão postas, ou que se abrirão, a partir do resultado das eleições. Minha intenção não vai além de dar uma contribuição mínima nesse sentido, sem a menor pretensão de oferecer uma análise profunda. É apenas uma tentativa de abrir o debate apresentando minha própria opinião a respeito. De fato, acredito que a conjuração de fantasmas do passado, a pretensa polarização ideológica, nada mais são do que um habilidoso jogo político, empregado por ambos os concorrentes, produto de máquinas eleitorais postas em movimento na hora do tudo ou nada. Para atingir o fim (vencer a eleição), todos os meios são válidos, e não há princípio que não possa ser sacrificado.

Voltemos à questão fundamental: quais as forças reais (de fato significativas) por trás desse processo? Os discursos montados sobre essa lógica do medo, que cada qual emprega à sua maneira, estão baseados em inimigos ocultos. Acontece que os “inimigos”, quando trazidos à luz, são na verdade os convivas que confraternizam no banquete do capitalismo dependente “turbinado” agora em vigor. Pois aquela questão não pode ser respondida senão investigando-se os setores com os quais os partidos (e as coligações) em disputa estão comprometidos. Basta observar as informações preliminares sobre financiamento de campanha, recordar com quem andaram flertando as candidaturas durante a campanha (e quem condenaram duramente) e considerar o espectro das alianças políticas. Basicamente, as candidaturas do PT e PSDB tem apoio dos mesmos setores. Ambas engajaram-se em dar as maiores mostras de seu comprometimento com o setor financeiro, com o agronegócio, com o capital internacional, enfim, com o grande capital, que se beneficiou extraordinariamente da reativação da economia brasileira. Ou seja, não há fundamento objetivo para aquela falsa polarização. Afora esses interesses, seguramente contemplados, não há, no momento, outras forças autônomas em movimento, apenas camadas sociais mobilizadas pelas manobras eleitoreiras, com nenhuma intenção além de amealhar votos.

O caso do PT é dramático, e por isso mesmo exemplar. A candidatura Serra, por oportunismo, reveste-se do discurso moralista na questão do aborto sabendo do forte apelo da religião no conjunto da população. O PT não apenas não enfrenta o desafio, não coloca a questão nos termos corretos, como compra o discurso. E não poderia ser de outra forma, porque o objetivo é vencer a eleição. E assim, a cada confronto, o PT vai cedendo mais, fazendo mais concessões, porque não enfrenta, adapta-se, tanto na campanha como no governo. Nesse movimento, vai sendo cada vez mais empurrado em direção à direita. Dilma precisou ir à basílica de Aparecida e se ajoelhar (entre outras demonstrações) para afirmar seu compromisso com “valores cristãos”. O PT, por sua vez, vai se curvando a cada vez que seu compromisso com o status quo é colocado em questão.

É angustiante viver em um tempo em que somos arrastados pela lógica implacável da eternização do presente, como se dá no caso. Somos quase que obrigados a escolher pelo “menos pior”, porque a alternativa encontra-se virtualmente interditada. Mas optar pelo “menos pior” não é sancionar todo esse processo de amesquinhamento da política, de completo esvaziamento e interdição do debate das questões substantivas? Não é uma mostra de conivência ou cumplicidade com as forças concretas que estão de fato sob a superfície caótica do vale-tudo eleitoreiro, e que constituem as bases do nossa condição dependente e subdesenvolvida? Penso que sim.

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