A farsa e a tragédia do novo “milagre econômico”

Se é correto que as aparências enganam, o equívoco é tanto maior quanto mais vistosas forem as aparências com as quais a realidade se reveste. O Brasil passa por um momento de rara euforia, impulsionado pela rápida recuperação da economia, pelas perspectivas de crescimento econômico e pelo discurso que apresenta o país como uma “ilha de prosperidade” em meio à crise mundial em curso, para ficarmos apenas no âmbito econômico. Antes de se colocar em questão a viabilidade desse novo “milagre econômico” e sua capacidade de atender às necessidades da sociedade brasileira em sua totalidade, a pergunta crucial é sobre quais são as bases dessa inusitada prosperidade.

O fundamento dessa efervescência da atividade econômica, tanto em sua dimensão produtiva quanto financeira, é o aprofundamento da integração do país na economia mundial. Para sermos mais precisos, trata-se de um processo de intensificação dos vínculos de dependência e subordinação em relação ao sistema capitalista internacional, ou seja, às corporações transnacionais que comandam a organização da produção capitalista em escala global. A crise mundial, que desarticulou os sistemas financeiros e implodiu a atividade econômica nos países centrais (Estados Unidos e Europa ocidental), com todas suas repercussões desastrosas ainda em desdobramento, privou toda uma massa de capital de quaisquer bases objetivas para sua valorização nesses países. A economia brasileira, com suas reservas de recursos naturais, seu vasto território, um mercado potencialmente promissor em sua escala, e taxas de juros extorsivas, tornou-se um alvo cobiçado, oportunidade ímpar de investimento e especulação para o capital internacional.

O Estado brasileiro mostrou-se o melhor dos anfitriões, recebendo (e “amparando”) o investimento estrangeiro e os fluxos de capital como benesses incomparáveis, como se fosse o maná jorrando sobre uma terra prometida. Basta ficarmos em três exemplos. As grandes montadoras não apenas vem produzindo veículos automotores em ritmo frenético, em uma escala verdadeiramente insana, como também utiliza o Brasil como plataforma exportadora para a América do Sul, sinalizando ainda a intenção de realizar novos investimentos. A bolsa de valores, as ações e a moeda nacionais são infladas pelo capital especulativo atraído pela rentabilidade das aplicações em valores no Brasil, em todo caso assegurada por uma desproporcional taxa básica de juros. Por fim, e aqui trata-se de um fenômeno realmente novo, o capital estrangeiro está penetrando em profundidade na exploração do agronegócio, avançando na aquisição do território nacional.

De fato, todo esse movimento ativa os fluxos econômicos, acelera a acumulação de capital em espaço nacional, enfim, induz o crescimento. Mas a que custo? Transformando o território brasileiro e sua população em reserva privilegiada de exploração para o capital internacional, em seu espaço de valorização desenfreada. Esse processo aprofunda o desmonte das bases materiais de uma economia nacional, posto que a organização da produção e as decisões de investimento vão sendo progressivamente alienadas em detrimento das empresas transnacionais, que operam em escala global. Além disso, intensifica a vulnerabilidade estrutural da economia dependente, pois fica cada vez mais sujeita a decisões tomadas fora e com base em critérios estranhos a si mesma, sem quaisquer certezas quanto aos impactos dos solavancos irradiados a partir do sistema capitalista mundial.

Somente uma visão economicista e abstrata (ou de má fé) do que seja o desenvolvimento pode conceber que um tal padrão de crescimento ancorado na dependência possa se traduzir em melhorias para o conjunto da população. Alienando nossa soberania, seguimos perdendo a capacidade de identificar e suprir nossas próprias e mais prementes necessidades sociais, subordinados à voracidade do grande capital internacional em sua necessidade vital de valorização. A economia brasileira vai sendo remodelada, e os investimentos orientados não em função das necessidades básicas do povo, mas conforme os critérios de lucratividade dos conglomerados transnacionais e para atender às necessidades do padrão de crescimento dependente. Um exame dessas circunstâncias permite colocar em dúvida tanto a durabilidade quanto a efetividade de um desenvolvimento econômico que se apóia na integração a qualquer custo à desenfreada globalização capitalista em época de crise. Sob a aparência vistosa dos números, o único espetáculo que se apresenta é a tragédia do avanço da barbárie social em uma sociedade que ainda não logrou tomar do imperialismo o controle de seu próprio destino.

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2 respostas para A farsa e a tragédia do novo “milagre econômico”

  1. João Law disse:

    João Paulo, é sempre alentador encontrar olhos abertos em meio à tanta cegueira eufórica. Parabéns pelos seus artigos. Abraços, Joao Law.

  2. Michel Fernando Pena disse:

    Observações muito pertinentes. É o esforço muscular-nervoso do camarada João Paulo a serviço das transformações radicais que, a cada dia, se tornam mais urgentes. Tenho muito orgulho e satsifação de ser seu companheiro de partido e por compartilhar do sonho por uma outra sociedade, onde @s trabalhador@s tenham vez e voz.

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