Uma questão de sobrevivência

Publicado também no Tablóide Verde

O nítido avanço da degradação do meio-ambiente vem trazendo à tona uma série de preocupações nada desprezíveis. No âmbito da economia, essas inquietações giram em torno à necessidade do que se denomina desenvolvimento sustentável. Desse ponto de vista, uma questão em particular deveria chamar nossa atenção. Atualmente, a maioria da humanidade ainda encontra-se privada dos benefícios mais elementares da civilização industrial, desde uma alimentação adequada até o acesso a serviços como saneamento, eletricidade, educação e saúde. Atender às necessidades básicas dessa imensa massa da população do planeta, hoje fora da esfera do consumo, implicaria em expandir o consumo e a produção. Mas seria isso compatível com a preservação do meio-ambiente, ou seja, com a manutenção das próprias bases naturais da existência humana?

Essa questão se apresenta se pensarmos, por exemplo, na economia dos Estados Unidos. Ela representa apenas 4% da população mundial, mas consome 25% da energia e dos recursos naturais estratégicos e é responsável por 25% da poluição de todo o planeta. Reproduzir e generalizar o padrão de consumo e a forma de organização da produção estadunidense é inviável desde um ponto de vista objetivo – redundaria no rápido esgotamento dos recursos naturais e em níveis insuportáveis de poluição e degradação ambiental. A situação é tão mais alarmante porque a China acaba de ultrapassar os Estados Unidos em consumo mundial de energia. Então, como incorporar toda aquela população excluída, garantir-lhe acesso às benesses do progresso técnico, se as implicações do ponto de vista ecológico podem ser desastrosas?

A questão, à primeira vista pertinente, é falsa, ao menos da maneira como é formulada. É perfeitamente plausível compatibilizar o atendimento das necessidades básicas da totalidade da população mundial e a preservação ambiental. A incompatibilidade estaria em pretender universalizar as formas de consumo e de produção que se originaram nos Estados Unidos e que, no pós-guerra, difundiram-se rapidamente para outros países desenvolvidos e, depois, para os subdesenvolvidos. Esse padrão de desenvolvimento, caracterizado pela produção em larga escala, pelo consumo massificado, pela acelerada diversificação e obsolescência dos bens de consumo, pelos elevados requisitos de recursos não-renováveis, entre outros atributos, é em sua essência depredatório. Com os atuais níveis de conhecimento técnico e científico e de produtividade econômica, a sociedade humana encontra-se em condições de propiciar as mínimas condições materiais de existência à totalidade da população mundial, sem agredir a natureza. Basta mudar as técnicas produtivas, a organização da produção e o padrão de consumo hoje predominantes.

A necessidade do desenvolvimento sustentável está em contradição com a forma atual de organização da produção e de gestão dos negócios em geral. A questão ambiental, que só pode ser abordada da perspectiva da totalidade, entra em conflito com o modo como se tomam as decisões de produção e de investimento, a partir de decisões privadas e atomizadas. O conflito se exacerba com o horizonte de curto prazo que cada vez mais rege as atividades econômicas, em sua lógica especulativa, para a qual o que importa são os resultados imediatos e os lucros financeiros fabulosos. A economia se move em torno à produção para o lucro, na qual a produção de mercadorias, que podem (ou não) satisfazer necessidades legítimas, é simples meio para atingir aquele fim. O lucro, como fim em si, não tem limites. Assim, a produção assume caráter depredatório, ao impor-se a produção em larga escala, o consumo desenfreado e supérfluo, e a aceleração intencional da obsolescência dos bens (produtos ou modelos que duram pouco, devendo ser substituídos pelas novidades disponíveis no mercado). Aqui, é a economia que comanda a sociedade, transgredindo os limites compatíveis à relação harmoniosa com a natureza.

O desenvolvimento econômico verdadeiramente sustentável tem pressupostos bem delimitados. A utilização racional dos recursos naturais, entendida como uma relação equilibrada, não abusiva, de intercâmbio da sociedade humana com a natureza, implica em um planejamento abrangente, com racionalização da produção e do consumo. Seguindo essa mesma linha, a economia deveria ser orientada por um horizonte de longo prazo, não mais lançando às gerações futuras o ônus do presente, considerando a humanidade em seu desenvolvimento e a natureza em seus processos de regeneração e evolução, em suas relações mútuas. Por fim, a própria finalidade da produção precisa ser subvertida, primando a produção para o bem-estar, orientada para a satisfação das necessidades humanas de modo sustentável. Em suma, tais pressupostos assumem a primazia da sociedade sobre a economia, isto é, que o conjunto das atividades econômicas esteja subordinado às necessidades sociais (e, portanto, ao imperativo da sobrevivência da humanidade como espécie e como sociedade em desenvolvimento permanente).

O desenvolvimento sustentável, nos termos referidos, é uma necessidade urgente, questão de sobrevivência da própria humanidade diante da devastação do ambiente físico e da biodiversidade do planeta. Pode haver uma solução técnica e economicamente viável, que possibilite levar adiante o progresso material e a integração do conjunto de pessoas hoje excluídas do consumo, sem violentar a natureza. Mas aqui termina a dimensão técnica do problema. A construção desse novo modelo de desenvolvimento deve passar pela política, pelo conflito. Interesses deverão ser enfrentados. Ou alguém duvida do conjunto articulado de interesses de grandes potências e corporações que pretendem manter o atual padrão, à revelia de quaisquer considerações que não o crescimento econômico em si, o lucro em si? Por exemplo, como reagiriam as grandes montadoras hoje instaladas no Brasil, responsáveis pela produção de 1,753 milhão de veículos automotores no primeiro semestre (306,35 mil unidades apenas em junho), se algum governo apresentasse um projeto de desenvolvimento de fato sustentável? Renunciariam amigavelmente aos seus lucros, pelo amor à humanidade e à vida? A construção de uma alternativa agora é questão de sobrevivência.

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2 respostas para Uma questão de sobrevivência

  1. Pingback: Uma questão de sobrevivência

  2. Magda Ribeiro disse:

    Parabéns JP, o blog está incrível e os temas super interessantes e relevantes, estou acompanhando e divulgando! Abraços, Magda.

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