O analfabetismo dos economistas

Os economistas costumam ficar muito à vontade com os números, mas quando se trata de interpretá-los, não conseguem ir além da repetição da mesma ladainha. Como os analfabetos funcionais, não têm a capacidade de perceber o sentido subjacente às séries de símbolos. A economia convencional se rende ao “espetáculo do crescimento”, pretendendo solucionar todos os problemas do país (e projetá-lo no rol das economias desenvolvidas) pela simples fórmula do crescimento econômico a todo custo. Para esses economistas, o desenvolvimento é resultado automático do crescimento. Na verdade, desenvolvimento e crescimento econômico são idênticos. Ao que parece, tais especialistas têm uma obsessão patológica pelos números, ou sofrem de um tipo muito particular de “analfabetismo”. São “analfabetos” em História.

O pretenso “espetáculo” fica deveras medíocre quando colocado em perspectiva global e em perspectiva histórica. A economia brasileira já apresentou taxas de crescimento muito superiores às atuais, relativas ao segundo governo Lula, durante o qual a variação real média do PIB não deverá ultrapassar 4,6 % a.a. (tomando a estimativa de 7,3 % do Banco Central para 2010). Na Era Lula como um todo, a economia não terá crescido a mais de 4,0 % a.a. Só mesmo um esforço de propaganda explica a comparação absurda dessas taxas de expansão do PIB com aquelas verificadas ao longo das décadas de 1980 e 1990. Foram décadas perdidas, estando a economia prostrada pela instabilidade macroeconômica e pelo endividamento externo, e depois pela própria política neoliberal. Entre 1981 e 2002, a produção se expandiu a uma insignificante taxa média anual de 2,1 %. É sobre essa base de comparação que se constrói o mito de um novo “milagre econômico”.

Por que não remeter ao período de industrialização por substituição de importações, quando de fato a economia brasileira avançou significativamente em termos quantitativos? No pós-guerra, a economia se expandiu, em média, a uma taxa anual de 7,5 % (entre 1946 e 1980), que se elevou a 11,2 % no auge do “milagre” da ditadura militar. Ora, esse avanço estava umbilicalmente ligado a um desenvolvimento qualitativo das forças produtivas, isto é, o país passava por um rápido processo de industrialização, de diversificação de sua estrutura produtiva e também de mudanças sociais profundas. O Brasil vinha construindo, ao longo de décadas, as bases materiais de uma nação, uma economia forte e capaz de crescer a partir dos impulsos que surgiam dela própria, com a formação e fortalecimento do mercado interno.

Contudo, a despeito das elevadas taxas de crescimento, o Brasil não conseguiu se desvencilhar dos problemas de sempre, que sinteticamente se expressam na segregação social. A História já não nos terá dado lições suficientes – muitas delas amargas – para entendermos que jamais sairemos do círculo de ferro do subdesenvolvimento apenas com crescimento? E que, ao contrário, os períodos de crescimento acelerado, em boa medida, apoiaram-se e aprofundaram a desigualdade social e a dependência externa? Os técnicos, acostumados aos números, não sabem ler essa realidade. Preferem repetir, monotonamente, a mesma ladainha.

E os resultados econômicos inexpressivos das décadas de 1980 e 1990? São a expressão dos próprios limites desse desenvolvimento que os economistas, convenientemente, interpretam em completa dissociação das estruturas sobre as quais se assenta e do processo histórico que o gerou. A pretensão das elites (subordinadas ao capital internacional) de reproduzir no país as indústrias e as demais estruturas e instituições típicas do capitalismo avançado, em um período de crise e reorganização do capitalismo mundial, levou à crise da dívida e a todas as conseqüências nefastas bem conhecidas – inflação, instabilidade macroeconômica e semi-estagnação. O capitalismo brasileiro precisava se readequar à “nova ordem mundial”, donde a adesão ao neoliberalismo. O novo lugar do Brasil no mundo implicava, como conseqüência da liberalização e desregulamentação, reversão do processo de industrialização e um retorno à especialização, em produtos primários ou manufaturados intensivos em recursos naturais e mão-de-obra. Privada dos impulsos endógenos ao crescimento, sujeita à volatilidade dos fluxos de capital financeiro e dependente da dinâmica do mercado internacional, a economia brasileira, debilitada, só podia apresentar crescimento pífio e inconstante.

Crescimento é aumento do produto e da renda, é acumulação de capital. Quando esse processo transcorre sobre bases e estruturas sociais marcadas pela desigualdade e pela marginalização, bem como pelos laços estruturais de dependência, o resultado é, em linhas gerais, concentração dos benefícios, e não sua distribuição. Acirram-se os problemas. Nada disso significa que o crescimento é dispensável. Ao contrário, o completo enfrentamento das mazelas sociais e do atraso material do país não poderá prescindir da expansão do produto e da renda, do aumento da produtividade e do progresso técnico. Mas isso deverá se dar sobre outras estruturas, após reformas estruturais radicais que, estas sim, podem extirpar os nexos do círculo vicioso da dependência e subdesenvolvimento.

A novidade é que a economia dita “heterodoxa” agora flerta com o discurso do “espetáculo do crescimento”. Apóia o crescimento a qualquer custo, mesmo que implique em enquadrar-se às determinações do capitalismo global, aprofundando o desenvolvimento dependente. Crescimento combinado a medidas paliativas, compensatórias, permitiria absorver o “atraso”, sem colocar em questão as causas estruturais desse “atraso” e, principalmente, que esse “atraso” é funcional ao desenvolvimento capitalista no Brasil. Essa, a propósito, é outra lição fundamental da História. Ao que parece, esse outro tipo de “analfabetismo” é outro dos graves problemas que o país precisa rapidamente enfrentar. Nada mais conveniente do que o fetiche dos números para ignorar as pessoas reais, as relações e as classes sociais que estão por trás deles, os interesses e os conflitos, a luta de classes, enfim, o movimento, a História.

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