A luta de Plínio

Aqueles que acompanharam o início da transmissão do debate entre presidenciáveis realizado pela Band, na noite do dia 5, tiveram a oportunidade de ver trechos de debates em outros tempos, quando as acaloradas discussões refletiam o confronto de diferentes projetos para o Brasil. Não raro, os candidatos encabeçando a disputa eram verdadeiras lideranças, no sentido de encarnarem, com determinação, as forças sociais em conflito para mudar (ou conservar) os rumos do país. Para quem acompanhou essas cenas da vida política, o contraste com o que viria em seguida à sua exibição tornou-se marcante. O triste espetáculo que se seguiu foi marcado pelo consenso e pelo esvaziamento do debate político. Ou melhor, assim teria sido por completo, não fosse a presença de um candidato inesperado e inusitado para a maioria – Plínio de Arruda Sampaio (PSOL).

A verdade é que não houve debate algum entre Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) e Marina Silva (PV), à medida que foi esvaziado do conteúdo propriamente político e reduzido a mera disputa pela gestão do mesmo modelo. Sem questionar o modelo em si, a solução para os dilemas que afligem a sociedade nacional é limitada à dimensão quantitativa, ao direcionamento de mais recursos para os programas e áreas consideradas prioritárias. Já a dimensão qualitativa, para não dizer que esteve de todo ausente, só aparece na forma amesquinhada da capacidade individual do gestor, de sua competência, inclusive para indicar e coordenar uma equipe de governo adequada. Por isso a discussão gira em torno de resultados, de quem fez ou fará mais. No entendimento compartilhado por aqueles três candidatos, se o modelo não funciona, é por incompetência do governante. O programa, nesse caso, consiste de uma série de medidas pontuais, que apenas atenuem os efeitos mais perversos do subdesenvolvimento, sem desnudar e enfrentar suas determinações estruturais. Seria algo como um médico que confundisse a atenuação dos sintomas com a cura da doença, não investigando e mantendo intocadas suas causas.

Dessa maneira, é possível (em situação de crescimento econômico e euforia especulativa) conter as tensões sociais, ao mesmo tempo em que são plenamente atendidos os interesses dominantes, pois o caráter tópico daquelas medidas não compromete os ganhos astronômicos do grande capital. Aquelas candidaturas compartilham a visão de que o bom desempenho econômico é a condição fundamental do desenvolvimento social, de modo que ao Estado caberia o dever de fornecer todos os estímulos à expansão dos negócios e assumir os custos dessa mesma expansão. Daí as medidas compensatórias, como os programas de transferência de renda e a frágil legislação ambiental, que buscam amenizar os impactos sociais e ambientais da exploração e depredação capitalista, dentro de estreitos limites que não comprometam a acumulação de capital em uma economia subdesenvolvida. Não fossem os rótulos partidários a lhes diferenciar, Dilma, Marina e Serra poderiam abraçar-se fraternalmente, concordando, em linhas gerais, com as políticas que vem sendo realizadas e irmanados no continuísmo. Seu consenso representa não a falta de projeto para a nação, mas a força com que ainda se impõe o projeto neoliberal, de maneira tão opressiva que bloqueia até mesmo o diagnóstico objetivo dos dilemas da sociedade e a consciência da alternativa.

A alternativa veio na figura de Plínio, que reivindicou e encarnou a divergência. Plínio também reivindicou as lutas dos movimentos sociais contra um sistema opressor, dramaticamente segregacionista, sabendo que as forças sociais em movimento e organizadas são a forma mais manifesta dos conflitos e contradições existentes e que pedem solução. Somente pela “leitura” dessas forças em movimento e pelo envolvimento nas lutas concretas é que se atinge o conhecimento dos problemas reais da população brasileira. Assumindo esses compromissos, o candidato do PSOL não foi ao debate para dizer o óbvio ou para abocanhar votos com discurso fácil e promessas genéricas. Ele marcou presença para, ao contrário, denunciar e incomodar, não para pintar a realidade com cores amenas, mas para apresentar, em particular, o problema crucial da sociedade brasileira, ao qual os demais presentes fizeram vista grossa: a segregação social, a abissal desigualdade na distribuição da renda, da propriedade e das oportunidades no Brasil.

No entender de Plínio, enquanto esse dilema não for frontalmente atacado, não poderemos construir uma verdadeira democracia. Desse modo, tentou mostrar que os problemas da sociedade brasileira não são problemas de gestão, sendo antes inerentes ao próprio modelo, logo, de natureza qualitativa, estrutural. As medidas paliativas mascaram temporariamente o problema, assegurando a continuidade do modelo ao conter as explosivas tensões sociais. Aplicar um anti-térmico no doente faz desaparecer a febre, mas não os desequilíbrios no organismo de que ela é apenas sintoma – ou seja, não se elimina a doença em suas causas. Mas mesmo o paliativo não estará disponível indefinidamente. Se porventura os interesses dominantes estiverem sob qualquer ameaça, ou em uma conjuntura econômica desfavorável, as outras candidaturas já definiram de que lado se posicionam, e de que lado irão cortar na carne. Comprometidas com o extremo egoísmo das classes dominantes brasileiras – e dos interesses estrangeiros que representam – jamais cortarão na própria, mas na dos trabalhadores. E, quando não há margem de manobra dentro do sistema para aplacar a revolta social, a solução é o emprego da violência.

Plínio lutou bravamente, contra o tempo e contra o vazio das demais propostas e discursos, tentando colocar em evidência suas contradições, representar a crítica. Deixou explícito seu compromisso radical com a verdadeira mudança social, que só pode surgir a partir das lutas sociais, das forças sociais em movimento, pela resolução dos conflitos, e não pela falsa conciliação. A luta de Plínio é a luta dos movimentos sociais, é a luta popular. É a luta pelo socialismo, pela emancipação e pelo desenvolvimento da sociedade nacional e da humanidade, nos marcos da igualdade.

Share

Anúncios
Esse post foi publicado em eleições, esquerda, política. Bookmark o link permanente.

3 respostas para A luta de Plínio

  1. Magda Ribeiro disse:

    Obrigada JP por esse texto tão elucidativo em relação ao que vimos no primeiro debate, é uma real pena que os níveis de discussão sejam tão pobres e desmerecedores do adjetivo “político”, é um alento ter a figura do Plínio para mostrar a possibilidade de mudança social, a qual encontra-se tão eclipsada frente ao “circo” político que vemos configurar-se nessas eleições.

  2. Thomaz disse:

    Ótimo texto. Plinio encarna a ousadia intrépida de Celso Furtado e a rebeldia revolucionária dos cubanos. Não por acaso, completou 80 anos no mesmo 26 de julho em que Furtado faria 90 e em que se recorda o dia da rebeldia cubana, data em que Fidel e seu compaheiros e companheiras atacaram o Quartel Moncada, em 1953, estopim para a etapa final da chegadao ao poder pela Revolução.

  3. Charles Nisz disse:

    João,
    A repercussão foi enorme. Uma boa medida disso foi o aumento dos seguidores do @plinioarruda no Twitter. Muita gente descobriu a existência de um “quarto candidato” e vamos ver até onde vai a epopéia do concorrente pelo PSol.

    Contando com poucos recursos monetários e humanos para a campanha, ele precisa usar os debates e as redes sociais para atrair os eleitores. Assim se desenhou a campanha de Obama rumo à Casa Branca.

    Mesmo que não seja eleito, acho uma despedida digna para o Plínio. Um belo presente para quem completa 60 anos de militância e 80 de vida.

    Charles Nisz

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s