“Não há alternativa”

Em tempos recentes, dificilmente passamos por uma situação tão angustiante quanto à carência de alternativas, e com um espetáculo tão deplorável quanto o que se apresenta neste segundo turno da disputa eleitoral. Não é apenas o nivelamento a baixíssimo nível da discussão, incluindo expedientes apelativos como o recurso à religião e uma série de troca de acusações, o que impressiona. O que espanta é a tática de intimidação empregada tanto pelo PT quanto pelo PSDB e suas respectivas coligações. São evocados fantasmas do passado e as perspectivas mais terríveis são apresentadas para quaisquer um dos candidatos que seja eleito. Defensores da candidatura Serra acusam Dilma de atentar contra os “valores cristãos”, contra a família e contra a liberdade de imprensa; do outro lado, apoiadores de Dilma apresentam Serra como prenúncio de uma ameaça de cunho fascista, apoiado pelos setores mais reacionários da sociedade; e assim por diante. Na aparência, estaria ocorrendo uma polarização entre forças progressistas e reacionárias. Nesse caso, parece-me que a questão relevante é saber se há, na base dessa suposta polarização entre PT e PSDB, verdadeiras forças sociais, com expressão e organização, em movimento.

O esforço para compreender objetivamente o que se passa, além da cacofonia do momento, é tremendo, mas imprescindível para entender as perspectivas que estão postas, ou que se abrirão, a partir do resultado das eleições. Minha intenção não vai além de dar uma contribuição mínima nesse sentido, sem a menor pretensão de oferecer uma análise profunda. É apenas uma tentativa de abrir o debate apresentando minha própria opinião a respeito. De fato, acredito que a conjuração de fantasmas do passado, a pretensa polarização ideológica, nada mais são do que um habilidoso jogo político, empregado por ambos os concorrentes, produto de máquinas eleitorais postas em movimento na hora do tudo ou nada. Para atingir o fim (vencer a eleição), todos os meios são válidos, e não há princípio que não possa ser sacrificado.

Voltemos à questão fundamental: quais as forças reais (de fato significativas) por trás desse processo? Os discursos montados sobre essa lógica do medo, que cada qual emprega à sua maneira, estão baseados em inimigos ocultos. Acontece que os “inimigos”, quando trazidos à luz, são na verdade os convivas que confraternizam no banquete do capitalismo dependente “turbinado” agora em vigor. Pois aquela questão não pode ser respondida senão investigando-se os setores com os quais os partidos (e as coligações) em disputa estão comprometidos. Basta observar as informações preliminares sobre financiamento de campanha, recordar com quem andaram flertando as candidaturas durante a campanha (e quem condenaram duramente) e considerar o espectro das alianças políticas. Basicamente, as candidaturas do PT e PSDB tem apoio dos mesmos setores. Ambas engajaram-se em dar as maiores mostras de seu comprometimento com o setor financeiro, com o agronegócio, com o capital internacional, enfim, com o grande capital, que se beneficiou extraordinariamente da reativação da economia brasileira. Ou seja, não há fundamento objetivo para aquela falsa polarização. Afora esses interesses, seguramente contemplados, não há, no momento, outras forças autônomas em movimento, apenas camadas sociais mobilizadas pelas manobras eleitoreiras, com nenhuma intenção além de amealhar votos.

O caso do PT é dramático, e por isso mesmo exemplar. A candidatura Serra, por oportunismo, reveste-se do discurso moralista na questão do aborto sabendo do forte apelo da religião no conjunto da população. O PT não apenas não enfrenta o desafio, não coloca a questão nos termos corretos, como compra o discurso. E não poderia ser de outra forma, porque o objetivo é vencer a eleição. E assim, a cada confronto, o PT vai cedendo mais, fazendo mais concessões, porque não enfrenta, adapta-se, tanto na campanha como no governo. Nesse movimento, vai sendo cada vez mais empurrado em direção à direita. Dilma precisou ir à basílica de Aparecida e se ajoelhar (entre outras demonstrações) para afirmar seu compromisso com “valores cristãos”. O PT, por sua vez, vai se curvando a cada vez que seu compromisso com o status quo é colocado em questão.

É angustiante viver em um tempo em que somos arrastados pela lógica implacável da eternização do presente, como se dá no caso. Somos quase que obrigados a escolher pelo “menos pior”, porque a alternativa encontra-se virtualmente interditada. Mas optar pelo “menos pior” não é sancionar todo esse processo de amesquinhamento da política, de completo esvaziamento e interdição do debate das questões substantivas? Não é uma mostra de conivência ou cumplicidade com as forças concretas que estão de fato sob a superfície caótica do vale-tudo eleitoreiro, e que constituem as bases do nossa condição dependente e subdesenvolvida? Penso que sim.

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