Uma revolta em construção

Desde a semana passada, o Brasil vem sendo agitado pela ida de milhares de pessoas às ruas. Após uma série de lutas pela redução das tarifas do transporte público nas principais cidades do país, que ganhou visibilidade com a atuação do Movimento Passe Livre (MPL) em São Paulo, e após uma dura repressão policial aos manifestantes, a população saiu às ruas em protesto. Essas grandes manifestações foram rapidamente além da pauta inicial, apresentando uma multiplicidade de demandas, palavras de ordem ou, simplesmente, a necessidade de extravasar uma revolta há muito tempo contida. Mais do que um desvirtuamento do movimento inicial, uma ruptura tão abrupta do imobilismo parece expressar uma insatisfação generalizada, resultado dos problemas que o país acumulou historicamente e que até o momento não encontraram solução.

Em meio à diversidade de propósitos dos manifestantes, é possível identificar um denominador comum. Além da questão do transporte público, que está na raiz dos protestos, vieram à tona os problemas da saúde e educação. A precariedade desses serviços, provocada pelo avanço da privatização e pela drenagem de recursos públicos pelo capital financeiro (por meio dos pagamentos referentes à dívida pública), afeta diretamente a população, que assim se vê privada de seus direitos básicos. Além disso, os protestos ganharam repercussão e cresceram depois da ação violenta da PM. A população se sensibilizou ao ver de modo escancarado a forma como os governos “dialogam” com os movimentos sociais, à base de muito gás lacrimogênio e bala de borracha, de modo que os protestos foram impulsionados pela indignação contra a repressão a uma demanda legítima. Em seguida, ganhou corpo um sentimento bastante difuso, porém vago, contra a corrupção, assim como uma aversão aos partidos políticos, representando a repulsa à democracia restrita, em que o Estado se põe como um ente estranho à sociedade, fechado à participação política das massas. Trata-se de uma reação a esse Estado que funciona segundo a lógica dos negócios, nacionais e multinacionais, em que público e privado se imiscuem, e onde o povo não tem vez, não podendo decidir os rumos do próprio país.

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Também foram muito evocados os símbolos nacionais, como a bandeira e o hino, que são as formas de identificação mais imediatas encontradas pelas multidões que saíram à rua, vagamente se reconhecendo como um povo que resolve expressar sua indignação. E, inesperadamente, o sentimento nacional, sempre tão associado ao futebol, não poupou sequer a Copa das Confederações e a Copa do Mundo. Voltando-se contra as prioridades estabelecidas pelo governo, que prontamente se mobiliza e investe em grandes negócios que não beneficiam o conjunto da população, e contra a Fifa, uma organização externa que tenta impor suas regras ao país, contrariando o princípio da soberania, esse sentimento nacional adquire contornos antes insuspeitados. Por essas razões, cremos que as causas últimas para essa súbita convulsão são os limites do capitalismo dependente brasileiro, em que a grande maioria da população fica alheia às decisões tomadas nas altas esferas do poder, assistindo a progressiva retirada de direitos, enquanto os privilégios das elites dirigentes, da burguesia dependente e do capital internacional permanecem intocáveis. No fundo, são as questões democrática e nacional que ameaçam voltar a aflorar.

Em meio a esse turbilhão, é impossível fazer afirmações categóricas. Contudo, não podemos subestimar a importância desse momento histórico. Nas condições da sociedade brasileira, marcada por grandes desigualdades, pelo conservadorismo e intolerância das classes dominantes, por uma classe trabalhadora heterogênea e com dificuldades para se afirmar como tal, e após uma década de tentativas de desmobilizar as lutas sociais, pela cooptação ou pela criminalização, não seria de estranhar que a revolta eclodisse dessa forma, espontânea, desordenada e repleta de contradições. Contudo, ela aponta para a necessidade de mudanças profundas, e não apenas melhorias pontuais. A derrubada das tarifas em inúmeras cidades mostra a força do movimento, e a ida de milhares de pessoas às ruas indica que algo se rompeu. A própria tentativa da direita de se apropriar das bandeiras levantadas, para esvaziá-las, mostra que a situação saiu momentaneamente do controle das classes dominantes e de seus representantes no poder e na grande mídia.

Será nessas manifestações que se dará o aprendizado político das massas, assim como o desenvolvimento da consciência de que conflito social é legítimo e que somente com luta se conquista direitos. Nada disso está dado de antemão. Por isso, a esquerda não pode se isolar, mas disputar, procurar dialogar com a população, seguindo o exemplo do MPL ao levantar uma bandeira concreta com grande potencial de mobilização popular. Não podemos deixar que essa conjuntura se transforme em outra oportunidade perdida, mas atuar para arrancar outras conquistas, criando bases para futuramente realizar as transformações radicais que a sociedade exige. Se assim for, no mínimo teremos formado uma geração que se provou nas lutas, e que saberá tomar com as próprias mãos aquilo que quer e construir uma verdadeira nação.

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