Sem violência?

Para quem está acompanhando o noticiário sobre os protestos no Brasil, fica claro que os atos de vandalismo voltaram a ganhar destaque. Ao contrário do que julgam alguns, o problema não está no sensacionalismo que realça as cenas de depredação, mas na insistência da mídia em diferenciar “manifestantes pacíficos” e “vândalos”. Se antes todos eram rotulados como arruaceiros, agora, com a irrupção das manifestações por todo o país, o que se procura é estabelecer uma dicotomia entre a turma do “sem violência” e os grupos de delinquentes que deturpam os atos. Contudo, quem desvirtua o significado dessa onda de protestos é a grande mídia, ao veicular insistentemente essa forma de abordar a violência nos protestos, ao tratá-la como algo totalmente alheio às manifestações, o que impossibilita a compreensão da revolta popular em curso. Se não tivermos em conta o papel e o significado dessa violência, cairemos na arapuca montada pelos interessados na preservação da “ordem”.

O sensacionalismo acentua as cifras dos prejuízos causados pelo vandalismo, assim como a destruição e os saques que colocam os comerciantes em pânico. É certo que tem ocorrido saques a estabelecimentos comerciais, e certamente há oportunistas que irão tirar proveito da situação. Porém, o que se vê nos saques a lojas e supermercados é a forma enfim encontrada por aqueles permanentemente marginalizados de realizar os anseios de consumo. São fruto de uma sociedade extremamente desigual, de maiorias segregadas, e que a todo momento, por todos os meios, estimula o consumismo, a realização pessoal pelo consumo. Mas essas ações são marginais. No âmbito dos protestos, a violência é canalizada para alvos muito específicos. Os alvos preferenciais têm sido agências bancárias, concessionárias de carros e prédios públicos. São símbolos de um sistema que está sendo questionado: os bancos, com seus lucros fabulosos nos últimos anos; as grandes montadoras, símbolo de uma modernização desvairada; e os centros do poder político, alheios aos interesses do povo.

spprotestovanrecordfogofernandoborgesterra5

Mais significativo ainda é o perfil dos atores dessas depredações. É marcante a presença de jovens da periferia, aqueles que não tem nada a perder e que vão para o conflito aberto com a polícia. São esses jovens que sofrem, direta e cotidianamente: a arbitrariedade e a opressão da PM e do tráfico (crescendo em meio às piores formas de violência); a exploração nos empregos mais precários ou as privações pela falta de emprego; a precaridade dos serviços públicos de educação e saúde e das condições de habitação e saneamento; a criminalização da pobreza e a retirada de direitos. A reação dessa juventude da periferia, em uma sociedade como a brasileira, que acumula tamanhas tensões há tanto tempo, é sua resposta à violência do cotidiano. Como uma panela de pressão, surgida a brecha, toda essa fúria represada eclode, tendo alvos mais ou menos bem determinados. Se as manifestações começaram a partir das lutas contra as abusivas tarifas do transporte público, pondo em evidência os limites de um capitalismo dependente que não está organizado para atender as necessidades do conjunto da população, a ação dos jovens da periferia ilustra dramaticamente as contradições desse regime de segregação social. A violência é o produto da profunda insatisfação, da raiva e da impotência duramente contidas, e que enfim podem se extravasar.

Para aqueles que lutam pelas transformações radicais que se fazem necessárias para resolver os problemas históricos do Brasil, existe o risco de cair na armadilha montada pela grande mídia, assumindo a dicotomia entre “pessoas de bem” e “marginais”. O que mais interessa às classes dominantes é a preservação da ordem, agora significando eliminar qualquer possibilidade de radicalização das lutas que se desenrolam no Brasil. Daí a insistência em condenar a violência, identificando rapidamente o “inimigo público” a ser combatido (o jovem pobre, negro, favelado, da periferia), buscando transformar a revolta em uma pacífica “festa da democracia”, um carnaval fora de época para dissipar temporariamente as tensões. A violência é um traço estrutural em uma sociedade que se apoia em tremendas desigualdades sociais e variadas formas de segregação – e, em primeiro lugar, a violência daqueles que fazem e farão de tudo para defender seus privilégios, pela preservação da “ordem”. A contra-violência dos “de baixo” é sua resposta a uma situação que se tornou intolerável. Se não tivermos isso em conta, não estaremos entendendo a realidade brasileira e, pior, perderemos uma poderosa força de transformação social, ao não conseguir dialogar com esses jovens rebeldes. O mais importante, no momento, é prestar muita atenção no recado que essa juventude está dando em seus combates nas ruas do país.

Recomendamos: “Rede Globo, o povo não é bobo”, por Plinio de Arruda Sampaio Jr.

Anúncios
Esse post foi publicado em Não categorizado. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s