A contribuição dos não-marxistas para a revolução brasileira

Não é incomum, entre alguns militantes e setores da esquerda, a atitude de desqualificar um pensador ou rejeitar sua contribuição colocando-lhe o rótulo de “reformista” ou “burguês”. Por esse ponto de vista, não haveria contribuição intelectual válida fora do campo do marxismo. Na verdade, é essa postura que nada tem de marxista, pois se trata de uma rejeição por princípio, dada de antemão. Para ficarmos em casos emblemáticos, basta lembrar que Karl Marx, para chegar à sua monumental obra, O capital, não se limitou à leitura de autores “revolucionários”. Ele se apropriou de amplo material e, no campo da economia, leu toda a economia política de seu tempo, sem preconceitos ou pruridos. O mesmo vale para Lênin, que em sua contribuição seminal sobre o imperialismo, por exemplo, tem como uma importante referência o estudo do não-marxista John Hobson sobre o tema, ao qual elogia e reconhece que avança em relação a pretensos “marxistas”.

No caso daqueles que estão empenhados na revolução brasileira, a relação com os intelectuais brasileiros não poderia ser diferente. Para entender a conformação de uma realidade específica e seus dilemas, temos que nos apropriar de toda reflexão, de todo o acúmulo de conhecimento e de elaborações teóricas de que dispomos a respeito dessa realidade. Basta tomar o exemplo de Celso Furtado, assumidamente não-marxista, mas cuja obra representa uma rica análise da especificidade do subdesenvolvimento, da situação de dependência externa e de segregação social que o reproduzem. O que não podemos é descartar um tal aporte apenas por ser “reformista” ou “burguês”, pois tal atitude equivale a conceber o marxismo como uma doutrina que já contem em si todas as respostas para todos os problemas – práticos e teóricos – da revolução, em qualquer lugar e em qualquer época. Isso sim é ser antimarxista.

celsofurtado

O ponto crucial está na crítica. Devemos nos apropriar criticamente do legado dos pensadores que se debruçaram sobre os problemas brasileiros, incorporando-os e superando-os, reconhecendo seus limites para ir além. Julgar a qualidade da obra de um intelectual pressupõe tomar conhecimento dela e fazer seu confronto com a realidade concreta, para avaliar – posteriormente, e não com base em julgamento apriorístico, abstrato – em que medida permite avançar na compreensão daquela realidade e na resolução de seus problemas. E, é claro, nunca nos esquecendo de que o conhecimento é intrinsecamente histórico, e que o critério da verdade é a prática, não havendo um corpo de verdades absolutas a orientar ações e acusações. Penso que é nessas bases que os marxistas brasileiros devemos nos posicionar e nos relacionar com a produção intelectual – tanto no campo do marxismo como fora dele – que problematizou os dilemas do desenvolvimento e da revolução brasileira.

Recomendamos: Karl Marx: “Tudo que sei é que não sou marxista”

“Antonio Cândido indica 10 livros para conhecer o Brasil”, Blog da Boitempo

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Uma resposta para A contribuição dos não-marxistas para a revolução brasileira

  1. Thomas Conti disse:

    Olá João Paulo! Você foi direto ao ponto nesse texto, que concordo inteiramente. Tenho colegas que descartam a análise de Furtado a priori apenas por não ser marxista e sempre achei essa postura bastante preocupante. Afinal, trata-se de um autor autêntico que dedicou todos os seus esforços intelectuais para teorizar e analisar criticamente as bases de reprodução do subdesenvolvimento – condição que nos é muito mais concreta e imediata do que aquela sobre a qual se debruçaram diversos outros intelectuais que desfrutam de posições privilegiadas na perspectiva marxista. Seu exemplo da apropriação de Hobson feita por Lênin não poderia ser melhor. Texto excelente, parabéns!

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